O tempo passa, e passa, e passa, e quando damos por isso percebemos que muito do nosso tempo já passou. Talvez seja exagero mas vendo bem já passou tanto tempo desde o tempo em que o tempo não nos pareceu importante que agora, olhando o tempo que temos parece que não vamos ter tempo para fazermos tudo o que em tempo não tivemos tempo de fazer. Mas ao mesmo tempo que gasto tempo dissertando sobre o tempo percebo que estou perdendo tempo com o tempo que me podia ser útil quer agora, quer noutro tempo quando o tempo me pareceu tempo sem tempo. E é com o passar deste tempo que o tempo se me vai acabando sem me dar tempo para ter mais tempo.
Ser velho é uma tristeza, é incómodo, é doloroso, em suma é uma chatice! É uma tristeza perceber as dificuldades das coisas simples como correr para chegar à paragem antes que o autocarro feche a porta e siga viagem, é incómodo pela morosidade em ultrapassar aquela meia dúzia de degraus que antes vencia de um salto, é doloroso em todos e em cada simples movimentos onde necessariamente as artroses participam; como disse ali acima, ser velho é uma chatice. Mas há mais chatices: ser velho também é (especialmente) triste porque vão morrendo os amigos e os familiares (que às vezes acumulam) deixando-me contra a sua e minha vontade, fazendo com que o meu mundo vá ficando menor. Ser velho é tudo isto mas não é só isto; ser velho é muito mais do que isto. Porém, e porque a alternativa não me é agradável nem desejável, vou manter-me neste registo enquanto para isso tiver engenho e arte (ondé que já li isto?)!