O PRESIDIÁRIO
(ilustração de: horamadeira.blogs.sapo.pt)
Os ruídos chegavam-me de muito longe. Como se viessem filtrados por cortinas de grosso tecido, umas a seguir a outras. Ouvia perto de mim o som de passos, alguns arrastados, do que parecia serem pessoas leves, pois o som desses passos era quase um sussurro! Também escutava vozes. Umas lamurientas que quase me falavam ao ouvido, outras esganiçadas de mulheres que gritavam lá longe e algumas, poucas, fortes e roucas que anunciavam autoridade e poder! Queria saber onde estava mas os meus olhos não se abriam. Quis levantar-me mas fiquei-me pela vontade. Parecia que o cérebro perdera o comando dos meus movimentos. Mais atento e habituado aos ruídos que me circundavam parecia que tinham retirados as tais cortinas, uma a uma e gradualmente pois momento a momento já ia sendo possível ouvir com clareza o que me rodeava. Todavia ainda não estava verdadeiramente ciente. Ouvia o pingar cadenciado de um líquido: ping… ping… ping…, sentia o cheiro a fumo de tabacos e de outras ervas misturado com um forte odor a mijo!
Consegui mexer-me ligeiramente. Movi a cabeça numa tentativa de minorar a dor que sentia no pescoço e também para libertar um braço que percebi estar a servir-me de travesseiro. Aqueles passos sussurrados calaram-se de imediato. Abri os olhos! Finalmente! Na minha frente estava um amontoado de rostos magros e inexpressivos semelhantes aqueles animais noctívagos pois o que mais sobressaía eram os olhos esbugalhados que me miravam numa mistura de curiosidade e espanto. Olhei em redor e lá estava a torneira pingando e ao lado um urinol que transbordava o conteúdo. Por sobre os ombros daqueles vultos que me rodeavam lá estava o gradeamento.
Percebi finalmente onde estava. Estava preso!
Com um esforço titânico consegui levantar-me e aproximar-me do gradeamento, por entre os outros presos que se iam afastando e procurando outro pólo de interesse já que eu deixei de o ser desde o momento que me levantei. Iam caminhando em volta da cela naqueles passos sussurrados que já mal ouvia. Pelo corredor ecoavam as vozes das mulheres que, percebia-se, reclamavam a libertação de amigos, filhos, maridos ou chulos caçados como eu fora na noite que terminara há pouco.
Ainda meio entorpecido gritei: Guarda! Nem um pio saiu da minha garganta. Estava afónico! Bonito, pensei. Agarrei numa lata vazia, de cerveja, parcialmente pisada que estava no chão e batendo com ela no gradeamento insisti: guardaaaa! Qual quê! Nada, nem uma sílaba para amostra!
Mas a lata cumpriu a sua obrigação porque um polícia apareceu e batendo fortemente com os tacões das botas no chão do corredor, gritou com voz forte e rouca: O que é que se passa aqui? Ao mesmo tempo que batia com o casse-tête nas barras do gradeamento e por pouco, muito pouco não me acertou nas falanges, falanginhas e falangetas que eu deixara displicentemente agarrando parte do gradeamento.
Recuei! Recuámos todos!
Disse: sr. Agente, eu não sei como aqui vim parar nem porquê e …
-Não sabe? Olhe nem eu que entrei agora ao serviço.
-Mas eu sou…, caramba!, eu não sabia quem eu era.
O polícia ainda demorou um pouco a olhar-me esperando que eu acabasse a frase, mas como eu nada mais dissesse bateu uma vez mais no gradeamento, deu meia volta e foi-se!
Comecei a dar voltas ao miolo procurando-me e em simultâneo tentando saber porque estava eu ali. Mas nada! Nada de nada!
Pouco depois meteram-nos num carro celular a caminho do tribunal onde eu confiava que finalmente se deslindaria a “coisa”. Puro engano! Fomos metidos numa sala de onde saía um de cada vez quando chamavam o respectivo nome, e à mesma sala voltavam depois de presentes ao juiz. A mim nunca me chamaram! Acho eu! Finalizados os tramites voltámos ao carro celular a caminho da choldra! Chegados, fomos contados após o que nos colocaram aos pares em celas individuais de dois. A mim calhou-me aparelhar com um velho meio cego e quase surdo e que falava muito sozinho. Eu acho que ele fazia perguntas às quais respondia precipitadamente. Até discutia com ele próprio, possivelmente porque ele respondera torto e ele mesmo.
E eu cá estou! Como ninguém sabe quem eu sou, nem mesmo eu, já estou preso há mais de dez anos numa cadeia que nem sei onde é; como e bebo todos os dias e várias vezes ao dia, e não faço a ponta de um corno.
Já nem me questiono a saber quem sou! E a reclamar muito menos! Acho que até poderia ser preso por estar a abusar da justiça e do sistema prisional!
