O nosso bairro tem tudo o que nós, os bairristas, necessitamos; cafés e pastelarias, uma livraria e duas padarias, um talho, um kiósk com jornais e revistas, um mecânico e dois ou três electricistas mais um canalizador e um servente de pedreiro a quem todos recorrem quando algum muro ou parede necessita de ser refeito, arranjado ou rebocado! De tabernas e de bêbados também estamos bem servidos. (são directamente proporcionais entre si). E temos ainda o Kin, de seu nome próprio: Joaquim Manuel (e + não se sabe). O Kin é aquela “figura” que todos conhecem, que todos acarinham e que é amiga de todos os bairristas em todas e em quaisquer que sejam as situações; mas às vezes… Há uns tempos, ouvindo dizer que “quem tem unhas é que toca guitarra”!, foi a uma loja da especialidade, comprou uma guitarra, deixou crescer as unhas e sentado no único banco de jardim do único jardim do bairro deu-lhe para guitarrar o que lhe ia na ideia.
-Òh Kin, tu não percebeste que isso das unhas e das guitarras era uma metáfora?
-Uma metáfora?
-Sim, uma maneira de dizer que só quem sabe fazer é que faz bem o que tem que ser feito; tás a perceber?, levas tudo ao pé da letra?
Ora bem, pensou o Kin, já percebi isto das metáforas, só preciso de escolher a letra que mais gosto: vai ser o kapa de Joakim que é o meu nome.
-Não Kin, nada disso…
-Atão, mas quantas metáforas há?, já estou a ficar todo embaralhado.
-Não são metáforas Kin, são ideias que se verbalizam, que geram controvérsias até alcançarem um consenso.
-Ahn?
-Sim, Kin; sabes que da discussão nasce a luz!
-Ai sim? Só se for lá na tua casa porque na minha se eu não a pagar nunca mais ela lá vai nascer!
Eram horas de fechar a taberna; saímos para fora (evidentemente), já era noite e estava tudo escuro; não havia luz e logo ali se iniciou uma discussão sobre os motivos porque é que não havia luz na rua.
Sobre tudo isto lembrei-me duma metáfora mas já era tarde e pensei: é melhor ir dormir; E fui!
O Sol já se tinha posto umas horas antes quando encontrei três velhotes deambulando pelos jardins de Belém, nitidamente perdidos por entre aqueles canteiros de buxos que tanta polémica causaram aqui à atrasado. Quando lhes perguntei se precisavam de ajuda balbuciaram qualquer coisa entre eles, (هل يمكننا طلب مساعدتكم؟) de que não percebi nada, e um deles disse-me: procuramos o caminho da Estrela mas com esta neblina noturna perdemo-nos e agora… Então agora eu ajudo-vos a lá chegarem: vão por aqui até Alcântara, e depois sobem a Av. Infante Santo e lá em cima é a Estrela e pronto, chegaram. Mas o menino perceba que não somos de cá e receamos perder-mo-nos de novo. Então o que é que eu fiz?, levei-os à Estrela e, lá chegados não é que (em agradecimento) me ofereceram uma moeda de oiro, umas folhas de incenso e um boião de mirra, dizendo: muito obrigado Menino! Então percebi quem eram: o Baltazar, o Gaspar e o Melchior, os 3 reis Magos. Ainda lhe disse que não era eu o Menino que eles procuravam mas responderam-me: já andamos nisto desde o Natal e temos mais que fazer do que continuar às voltas para ver um puto em palhinhas deitado. Adeus! E lá se foram rua abaixo em direcção ao Sol nascente.
Todos os anos ele aparece, vestido de igual, e com o mesmo guião: o burro e a vaca, as palhinhas e o menino Jesus, (que nunca + cresce!?), o São José e a (ainda) Virgem Maria, os três Reis Magos (cada ano mais magros do que Magos), para ofertarem o oiro, o incenso e a mirra, mais a estrela que anuncia o nascimento do eternamente menino! E para que este não seja diferente voltámos a juntar-nos ao redor da mesa, (que só está meio "posta"), família e amigos, num alegre convívio: filhas, genros e netos (uma vinda da Suiça), o Leitão vindo da Bairrada (no ano passado veio o primo de Negrais), uns amigos que vieram de Moçambique propositadamente para o jantar, um alentejano conhecido por "trinca bolotas", e ainda um perú que veio para a mesa à última da hora. Quem prometeu cá vir e não veio foi um amigo francês, o Champagne, com a desculpa de estar com gases e borbulhento. Porém não ficámos nada desiludidos; o nosso conhecido e muito apreciado Murganheira, de Tarouca, esteve presente e festejou com todos nós este Natal.
O Murganheira não está representado porque estava no frigorífico, a refrescar-se!
Chega esta época do ano e florescem solicitações para “isto” e mais “aquilo”, todas elas muito apetecíveis e que me deixam à nora sem saber por qual me decidir. Não é só por todas me parecerem boas mas isto dum gajo passar um ano quase inteiro sem lhe oferecerem uma oportunidade de trabalho, tanta fartura em tão pouco tempo baralha-me um bocado as ideias. Tendo que me decidir por uma, aceitei integrar-me no elenco duma encenação, onde me asseguram estarei em palhas deitado, situação que aceitei fazer sem qualquer esforço e que, ao mesmo tempo, me dará algum prazer e conforto. A maior dificuldade é ter que me manter acordado durante toda a noite para que os previstos ilustres convidados não sejam recebidos com todos nós adormecidos e roncando.
Quem havia de dizer que eu acertava nos 5 números e mais nas 2 estrelas do concurso deste sexta feira? Nem eu mesmo acreditaria apesar duma grande vontade que isso me acontecesse. Mas o que é certo que acertei e a alegria aumentou depois de saber que sou o único totalista. Sem caber em mim de contentamento, corri para a rua gritando: GANHEI!!! GANHEI!!! para toda a gente com quem me cruzei e houve até alguém que, assustado com tanta gritaria, me disse: vai à merda, pá!Pessoas que não percebem a alegria dos outros, é o que é. Virei-lhe as costas, e continuei espalhando a felicidade de me saber (finalmente) milionário. No meio de tanta euforia e não vendo onde punha os pés, tropecei numa pedra da calçada que, não estando bem calcada sobressaia no passeio e.. katrapuz!: dei um berro e caí com estrondo da cama a abaixo, quase matando a gaLina do coraçõn. Resumindo: tudo não passou dum sonho (ou pesadelo?) tanto mais que eu nem tenho o hábito de jogar, nem sequer nas “raspadinhas”.
Ainda pensei escrever ao Pai Natal para lhe lembrar o quanto bem eu me comportei durante todo este ano de 2025, para que ele me trouxesse algo condizente em vez de fazer como fez em anteriores Natais quando só me calharam peúgas, cuecas e duma vez dois bombons do rocher um dos quais já ratado e com laivos de bolor. Este ano e sabendo que ele já não sai de casa para fazer as entregas, porque agora utiliza os drones, decidi-me por outro meio: enviar-lhe um mensageiro com o rol das coisas que mais gosto e que falta me fazem. E para que ele não arranje desculpas nem tenha que reclamar, vou-lhe mandar uma garrafinha de medronho para o ajudar a combater o frio lá na Lapónia.
No final duma sexta feira sem estória, sem nada que mereça qualquer tipo de relevância, o céu acolhe um pôr do sol de cores suaves preparando-se para a noite que está próxima. As chaminés sem nada para fumegar mantêm-se sombrias, mudas e quedas, até que um novo dia as desperte pelo suave odor que umas torradas, uns ovos mexidos ou até mesmo umas fatias de bacon fritando, lhe subam pelas paredes. Espostas à noite que sobre os telhados impera resta-lhes aguardar pelo amanhã com o desejo de que o sol volte a brilhar sendo elas as que primeiro o vão abraçar.